A prece de “Church”

Uma das faixas mais ambíguas de Everyday Life, ao mesmo tempo que poderia ser a sua introdução, está diretamente relacionada com o encerramento.

16.jan.2020

A coluna Por trás da canção apresenta uma série especial com análises das letras de faixas selecionadas de Everyday Life, o novo álbum da banda.


“Church” é uma das faixas mais ambíguas de Everyday Life. Ao mesmo tempo em que poderia muito bem ser a primeira faixa, com seu jeitinho tímido, intimista, porém energético e introdutório — estes dois últimos, tradicionais das aberturas de álbum do Coldplay —, ela é, também, uma referência direta à faixa de encerramento, que leva o título do álbum.

Isso acontece porque a progressão de acordes (F#mA Em Bm) de ambas as canções é a mesma. Um simples teste: basta tocar “Church” a partir dos 32 segundos, e “Everyday Life” aos 1min06, e elas se sincronizarão até o final.

Mas “Church” vai muito além de coincidências (quer elas tenham sido planejadas ou não).

A segunda faixa de Everyday Life aborda um fino paralelismo entre a beleza e a presença apaixonante, acolhedora, da pessoa que faz sentir-se seguro e protegido. Como uma igreja — aí, entra o nome “Church” —, onde uma pessoa de fé pode sentir as mesmas emoções de alegria e segurança incondicional.

Mesmo assim, o narrador parece se sentir abandonado. A primeira estrofe pode gerar duas interpretações: 1) é como se suas orações nem fossem reconhecidas, enquanto o objeto delas está respondendo a todas as outras orações; ou, 2) em uma analogia entre quem ele ama e Deus, questionasse por que não consegue superar, enquanto a pessoa parece espalhar atenção e amor em qualquer outro lugar.

O que posso lhe dizer?
Quando estou com você, é como se eu andasse no ar
Te observando dormir ali

E o que eu não poderia superar?
Para todos, em todos os lugares
Você está respondendo a cada oração

Em seguida, é feita uma série de questionamentos através de referências da antiguidade por trás dos sete mares.

Várias culturas definiram a identidade dos mares à sua maneira. Acredita-se que o termo “sete mares” deveria abranger todos os mares do mundo, sendo sete um número místico, de divindade.

O questionamento, então, revela que ele continua fazendo suas orações. Na figura de um “sétimo mar”, o narrador representa a si mesmo como o mar supremo, no fim do mundo. Difícil de alcançar e ainda mais difícil de navegar, sua oração pede que seu amor o alcance e “navegue” em direção a ele.

Quando estiver navegando em uma onda
Você não vai trazer essa onda até mim?
Quando seu barco estiver partindo
Eu posso ser o seu sétimo mar?

A cantora Norah Shaqur participa de “Church” vocalizando um verso em árabe. O trecho evoca uma referência ao Salmo 22, em que Jesus exclama, na cruz, “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que te alongas do meu auxílio e das palavras do meu bramido?”

O texto leva a entender que, mesmo machucado e sozinho, sem aparente reciprocidade, o narrador ainda adora e glorifica seu amor.

أبي يا الله يا قادر، لماذا تركتني؟
أبي يا الله يا قادر
حرية يا الل
ه محبة يا الله

Meu Pai, óh, Allah, óh, Todo Poderoso, por que me abandonaste?
Liberdade, óh, Allah
Seu amor, óh, Allah

Mesmo assim, a fé e o amor são o que o movem o narrador, que não se deixa abalar pelas dificuldades ou os desafios que lhe são impostos. É como se cada um deles se tornasse um aprendizado, ou uma chance de recomeçar. Porque, para ele, acreditar nesses sentimentos é suficiente para que a vida tenha o mínimo de sentido. E seguir adiante seja menos doloroso.

Eu louvo em sua igreja, sempre
Eu louvo em sua igreja, todos os sete dias
Eu adoro e adoro

“Church”
Composição: Chris Martin, Jonny Buckland, Guy Berryman, Will Champion, Amjad Sabri, Davide Rossi, Mikkel Storleer Eriksen, Tor Erik Hermansen, Jacob Collier & Norah Shaqur
Produção: Rik Simpson, Daniel Green & Bill Rahko
Engenharia adicional: Jacob Collier & Davide Rossi
Programação: Daniel Green
Teclado: Will Champion, StarGate, Federico Vindver, Daniel Green & Chris Martin
Violão: Chris Martin & Angel López
Cordas: John Metcalfe & Davide Rossi
Vocal de apoio: Will Champion & Jacob Collier
Vocal adicional: Norah Shaqur & Amjad Sabri
Produção adicional: Federico Vindver & Angel López
Assistência: Tyler Gordon, Tony Smith, Thomas Warren, Tate McDowell, Stephanie Streseman Wilkinson, Nick Davis, Miguel Lara, Matt Latham, Lance Powell, Garry Purohit, Crystal Mangano, Charley Pollard, Anthony De Souza & Alekes Von Korff
Sample: “Jagah Ji Laganay”, de Amjad Sabri


Com a colaboração do Genius
Tags:

Comentários

As mensagens deixadas por leitores não são responsabilidade do Coldplay Brasil. Vale lembrar que, como não compactuamos com discurso de ódio, comentários que sejam ofensivos serão excluídos. Nós também utilizamos o Akismet para tentar reduzir spam. Clicando aqui você entende como seus dados são processados.

Deixe um comentário

Skip to content