Política, história e Coldplay: a construção da Viva Era

“Chris, Will, Jonny e Guy resolveram sair da zona de conforto e aproveitaram o melhor e o pior contexto possível da época pra construir um álbum bem elaborado.”
23.jun.2018

O ano é 2007.

Em meio a notícias da Guerra do Iraque com o Estados Unidos, massacres de civis e terrorismo combatendo terrorismo, o mundo se torna cada vez mais interessado (ou desesperado) por política.

Neste mesmo ano, o Coldplay decide deixar pra trás tanto as críticas em torno do último álbum lançado — na época X&Y — quanto às abordagens sobre problemas pessoais e introspectivos que sempre eram temas centrais de suas músicas.

Então, em junho de 2007, começava o trabalho em cima do álbum mais vendido do ano seguinte e indicado a seis Grammys – Viva La Vida Or Death And All His Friends. Ali crescia a vontade de se referir a assuntos mais abrangentes, universais, se preocupando mais com os problemas da humanidade.

No entanto, chega o ano de 2008. E com ele a maior crise desde 1929, a economia mundial resolve virar de cabeça pra baixo, Fidel Castro renuncia o comando de Cuba depois de 50 anos, Obama se torna presidente do Estados Unidos. E dentro este caos todo, no Reino Unido, exatamente um ano após o início das gravações do disco, nasce o 4º álbum da banda.

Escutando-o de uma só vez, sentindo faixa por faixa, você já consegue notar a ligação entre amor, guerra e revolução em cada uma delas. Até mesmo nas mais leves. “Life in Technicolor” inicia o álbum com uma melodia de introdução e um coro que carrega uma esperança na garganta, enquanto “Death And All His Friends” o termina como uma súplica de civis ao enfrentar a própria morte na guerra. Leva a música “42” – que baseado em uma teoria seria a resposta pra vida – como um apelo de um cristão à Igreja na época das Cruzadas. E também “Violet Hill”, que foi a primeira música de protesto contra a guerra e foi inspirada em um documentário da Fox News, de acordo com o próprio Chris.

Escutando-o de uma só vez, sentindo faixa por faixa, você já consegue notar a ligação entre amor, guerra e revolução em cada uma delas.

O disco é compacto, tem apenas 47 minutos, mas conta muito mais história do que os três anteriores juntos. Mas a banda decidiu voltar lá atrás na Revolução Francesa como base para criar o conceito do disco e assim encaixar melhor todos seus arranjos e letras.

Viva La Vida, assim chamado pela maioria, tem aspectos lindíssimos em cada pedacinho dele. São muitas as referências e inovações na composição.

O álbum foi moldado com influências hispânicas, foi gravado em algumas igrejas do México e de Barcelona, Chris disse ter lidos vários romances de Charles Dickens durante o processo de gravação, a faixa “Viva La Vida” tem presença de uma orquestra, “Lost!” tem influencia de música tribalista, Brian Eno o produziu e houve até técnicas pra mudar um pouco os vocais do Chris por ele ter uma voz muito reconhecível.

Com tamanhas referências políticas e instrumentais, não poderia faltar a do livro “Otelo, o Mouro de Veneza” de Shakespeare. O livro conta a história de Otelo, um general que tinha muito poder sobre uma ilha, como um monarca. Ele foi induzido por seu tenente a acreditar que sua esposa era infiel e, dominado pela raiva, a matou. Depois disso, perdeu todo o seu poder e se matou quando o tenente confessou que era mentira e que sua esposa era a mais fiel e dedicada do mundo.

A música “Viva La Vida” se remete também a esta interpretação do livro, pois se trata da confissão de um homem que foi poderoso e dominou o mundo, mas que perdeu tudo, assim como Otelo. As citações sobre cavalaria, sinos de Jerusalém e romanos lembram as Cruzadas e os Vassalos, assim como todo este mundo medieval que é mencionado em Otelo.

Chris, Will, Jonny e Guy resolveram sair da zona de conforto e aproveitaram o melhor e o pior contexto possível da época pra construir um álbum bem elaborado.

O que tudo isso deixa claro é que Viva La Vida or Death and All His Friends é mais que um álbum conceitual, ganhador de prêmios, ou até, “o alavancador da carreira da banda”. Chris, Will, Jonny e Guy resolveram sair da zona de conforto e aproveitaram o melhor e o pior contexto possível da época pra construir um álbum bem elaborado, presente e que pode se encaixar em contextos políticos por anos e anos. E ele completa 10 anos este mês deixando a mensagem de que política, conhecimento e posicionamento são arte e arte nós não só tiramos de dentro de nós, como também tiramos do mundo e botamos no papel.

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